sábado, maio 4

Sonhando

O meu quarto tem um ar familiar, porém estranho. É a união de ambos os quartos que tive nestes 20 anos de vida: metade o actual, metade o antigo. Estranhamente tem duas portas: uma leva ao corredor do meu antigo lar, outra que leva a um túnel.
O sonho começa no fim desse túnel arenoso, sombrio, húmido e tenebroso. Há uma porta de metal, branca e enferrujada, com uma janela de vidro fosco, esverdeado, com grades brancas à frente. 
A porta leva-nos a um deserto, deserto esse com areia húmida, como que banhada por ondas e correntes que outrora se faziam sentir. Areia essa que espelha tonalidades roxas, violetas, verdes, azuis e doentias. O céu está coberto de nuvens carregadas e esverdeadas, qual enxofre no ar. À nossa direita uma poça, um lago, também ele esverdeado, imundo. No seu fundo: bebés. 
Ap olhar para a esquerda vêem-se agentes da força, policias armados a perseguir homens nus, gordos, carecas. Temos uma visão do que estes homens fizeram: conjuntamente violaram e abusaram de cada bebé presente naquele lago. As imagens pairam pelo ar quando nos focamos numa figura, nada mais que um vulto sentado no lago, rodeado pelos fetos. Acariciava um, já morto. Quando nos aproximamos, o vulto oferece-nos a criança. Vemos pela primeira vez a cara do pequeno ser: deformada, feia, deficiente.
Com o nosso espanto, também o vulto se espanta e vira-nos a cara, mostrando-se uma velha, com cara idêntica à acabada de descrever. 
Ela fala, palavras sem sentido, idioma morto ou caído em desuso. Ao reparar nas vestes e na rígida postura da mulher, com as mãos em posição de prece, verificamos que se trata da Virgem Maria. 
Abrimos a porta e percorremos o túnel até ao quarto, para descobrir nele um demónio a percorrer os nossos diários mais íntimos e os nossos desenhos mais macabros. O demónio é vermelho, alto, assustadoramente carismático. Este obriga-nos a voltar atrás e ir buscar a Virgem. É a nossa missão trazer a Virgem de volta. 
É a minha missão salvar a Virgem.