quarta-feira, outubro 6

#1

Por muito que afastasse as cortinas, abrisse as janelas e pusesse a minha cabeça de fora, as paredes continuavam a aproximar-se, o quarto cada vez mais pequeno e eu cada vez mais aterrorizada.
O vento que entrava deixava tudo mais frio, vazio e silencioso cá dentro. Calei a música que me fazia companhia com o dedo, em sinal de respeito pelo silêncio que se impunha sem dó. Estava a enlouquecer!
Tinha de sair.

Lá fora chovia, mas isso não me deteve. Deixei as minhas roupas serem ensopadas e o meu cabelo encharcado. Nem tirei os óculos de sol.. A Primavera não merecia ver os meus olhos naquele estado.
Ter caminhado na chuva até foi bom. A chuva fundia-se com as lágrimas que pelas minhas bochechas escorriam, e o gosto salgado tornava-se agridoce nos meus lábios trémulos.
Ninguém viu. Ninguém percebeu. E eu gostei. Gostei de ter passado despercebida, apenas mais uma no meio da multidão.

Assim que a chuva cessou, também eu parei. Voltei para casa com um milhão de dores de estômago, olhos secos e palavras presas na garganta. A minha cabeça vem baixa e os meus ombros descaídos, fracos - postura totalmente alheia à minha pessoa.
Agora, aqui sentada no meu quarto, rodeada por estas paredes claustrofóbicas, sinto a tempestade a voltar a se formar. Tento encontrar uma música que me acalme, que apazigúe a minha alma, que me remeta paz, mas não há aqui nada que não me traga doentias lembranças. Melhor mesmo é deixar chover e esperar que ela lave o que eu nem quero pensar.

Agora pergunto a mim mesma: porque é que tive de sair de casa? Porque é que não lutei para ficar com os que amo?
É que aqui, aqui não há vivalma que me conceda um abraço, não há alicerces, é tudo traiçoeiro e perigoso! Eu não tenho para onde correr, quem me dê um beijinho só porque lhe apetece, nem ninguém que me conte da vida, que reclame dos problemas ou comemore as felicidades. Ninguém me diz bom dia  e o cheiro a café acabadinho de fazer pela manhã? É mentira.
Lá era tudo tão fácil convosco ao pé. Lá eu não tinha medo das trovoadas nem do escuro. Era tudo tão manso, calmo e seguro. Agora sei, pai e mãe, o vosso medo não era em vão.

-------------------

Confissões de quem saiu de casa.


*Bea

3 comentários:

  1. ... por mim, não vais sair de casa NUNCA !!! :) te adoro pekenina :)

    ResponderEliminar
  2. amei mais uma vez...so te digo uma coisa so fã e adoro.te tanto mas tanto qe ate te digo mais nao vas pa xuva vem pa santarem xDD

    ResponderEliminar