sábado, maio 28

Sete-Sóis, Sete-Luas

Eu não sei porque tanto crucificam o senhor genial que escreveu o Memorial do Convento.
É preciso ser-se de facto génio para se lembrar de história semelhante àquela que podemos saborear a partir do capítulo V.
Onde já se viu tamanha cumplicidade (sim, eu sei que esta é uma palavra que muitas meninas gostam de bradar aos céus completamente à toa, mas por favor, assumam-na como ela foi criada para) tamanho amor, sincero, puro, verdadeiro?
Saramago cria a utopia do amor e consegue fazer um paralelismo com a Igreja e os valores que estavam completamente distorcidos: a Igreja casou o Rei e a Rainha que, coitados, nunca se amaram... O Rei cumpre o seu "dever conjugal" em vez de fazer amor com a mulher, o Rei procura o que não tem em freiras inocentes (inocente não será a melhor palavra para as descrever, talvez fingidoras de ingenuidade), a Rainha procura o mesmo, não tão literalmente, ao sonhar com o seu cunhado! São infelizes juntos, mas casados aos olhos de Deus, passíveis de fazer tudo o que um casal casado tem direito.
Já em Baltasar e Blimunda temos o cenário de pernas para o ar: amam-se como nunca ninguém se amou, aceitando todas as qualidades e defeitos um do outro, procurando sempre o outro, para que as suas almas nunca se desencontrem. Aqui temos o verdadeiro amor, mas por não serem casados, não deveriam ter o direito de se amarem.
Pasmem-se ao ver a crítica que este homem conseguiu passar, o contraste que faz, a associação do nobre à infidelidade e à tristeza, e do pobre à utopia da felicidade!

Aquilo que me consegue fascinar ainda mais, nesta obra, é o quão sádico e retorcido Saramago consegue ser. Explico: este autor mostra-se capaz de criar coisas incríveis que todos nós ambicionamos - a felicidade fantástica do estio cor-de-rosa e conto de fadas, ao lado de quem de direito - mas também se quer afirmar como poderoso. Para além de criar tal história que nos faz salivar e querer virar a página sempre que estes dois entram em cena, é capaz de a acabar tão facilmente como começou.
Saramago é capaz de deitar por terra aquela bolha que dentro de nós inchou e para o céu fugiu, com toda a esperança de que tudo vai correr bem connosco (sim, porque é exactamente isso o que retiramos da história de Blimunda e Sete-Sóis: se acontece com eles, porque não a mim?). Em poucas palavras dá um fim à vida carnal de um homem que lutou, trabalhou e amou como poucos o fizeram, e à vida espiritual de uma mulher que foi amada por tamanha graciosidade.

Saramago, és maliciosamente excelente.

*Bea

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