domingo, agosto 21

The Rise of the Planet of the Apes


CONTÉM SPOILERS.

Este foi, de longe, o melhor filme alguma vez feito. Arrepiou-me incessantemente. Tinha pausas nos momentos certos que permitiam a reflexão. 
Não só excelente no que toca a efeitos especiais, como pertinente tendo em conta que estamos na era da investigação científica. Há que saber os limites. Há que reconhecer que o código de ética existe por uma razão. 


A brutalidade inerente a alguém é poderosa [associação à cena em que Cesar se tenta integrar entre os outros macacos].
Desde o primórdio dos tempos que somos guiados pela força bruta. Era como conseguíamos alimento e nos mantínhamos seguros. Forma de nos mostrar superior, de nos rotular capazes de fornecer segurança e manter a ordem entre os nossos pares. Ainda hoje, inconscientemente, damos por nós a tentar estabilizar arrufos mostrando-nos mais fortes ou entrando em lutas de modo a mostrar "quem manda ali".
Se não for controlada iremos acabar por nos encontrar num rota contrária à pretendida: o objectivo é avançar, mas utilizando métodos primitivos acabaremos por regredir.
No filme somos deparados com esta realidade. O macaco-mor ali do centro de controlo de primatas mostra-se superior a Cesar lutando contra ele assim que ele lá chega. Quem é novo, estranho a um lugar nosso é considerado ameaça. Tentamos eliminar a ameaça.


O rancor por detrás de cada acção é corrosivo [associação à cena em que Koba decide não ajudar Jacobs].
Seres sociais, vemo-nos várias vezes confrontados por situações que nos desiludem. Ficamos desiludidos de tal forma que guardamos rancor, rancor esse que é o veneno que corrói a pessoa que o carrega. Perdemos o discernimento e procuramos vingança acima de tudo. Não nos damos por satisfeitos com uma vingança fria, queremos dor, sofrimento. Somos seres vis, ainda sem grande controlo sobre as emoções; por vezes perdemos para o irracional.
Brilhantemente ilustrado no filme, o rancor é notório na pausa que Koba faz antes de rejeitar o pedido de ajuda que Jacobs tanto implora. O macaco utilizou todo o sofrimento que lhe fora causado por tantos outros investigadores no passado e descontou tudo no último que se aproveitou dele. Não só não deu a mão a Jacobs, como também empurrou o helicóptero, entregando o investigador à morte certa.


A inteligência molda os instintos primitivos, comandando tudo.
A "inteligência" nada mais é que a capacidade de cada um organizar e controlar emoções primárias. A inteligência passa por impor limites ao que nos move, reconhecer o bastante e cessar fogo assim que atingirmos objectivos. Impulsos, estímulos todos nós temos: recordações do passado, provocações do presente, desafios do futuro. O que distingue cada um de nós é a nossa capacidade de lidar com toda essa força que sentimos pulsar nas veias.
Rupert Wyatt deu vida a uma enorme lição de vida: já no fim, Cesar inicia a sua fuga. Planeia cuidadosamente cada passo. Lidera todos os outros macacos de modo a serem seus aliados. Ensina-lhes tudo o que sabe. Inicia a fuga. Ao encontrar obstáculos pelo caminho, destrói-os. Os humanos tentam travá-lo. Os seus companheiros têm o impulso de matar quem se opõe a eles. Mas Cesar impede-os. Embora inteligentes, conscientes de um saber imenso, falta-lhes sensibilidade e valores. Não obstante, Cesar cresceu rodeado de afecto e sabe distinguir o bem do mal. Não causou mais destruição do que a necessária de modo a atingir o seu fim.
Cesar é a personificação da inteligência. Tinha limites, auto-controlo. Motivado pelo rancor, dotado de uma força física imensa, capaz de uma destruição em massa, poupou vidas e o planeta.


A incúria de um é a sentença de milhões.
O desleixo de uma só pessoa pode causar um desastre massivo. Neste caso, o facto de Franklin não utilizar máscara e ter sido contaminado com a substância, levou à contaminação mundial. Pouco a pouco foi sendo espalhada e cobriu os continentes e oceanos. Embora seja um caso exagerado, serve de lição para demasiadas coisas no nosso quotidiano que fazemos com menos cuidado ou atenção.


Será a alma exclusiva?
O filme trouxe-me ainda a questão que paira sempre por aí.
Alma. Temos? O que é?
No filme somos deparados com o Cesar a fechar os olhos de Buck quando este morre. "De acordo com a tradição mística judaica, a pessoa quando morre encontra-se com o Criador. E seria indecoroso contemplar a Presença Divina ao mesmo tempo em que se observa as coisas mundanas. Fechando os olhos do falecido para o mundo físico, permitimos que ele os abra para a paz do mundo espiritual."
Será a alma algo idealizado por nós, pela consciência? Ou estará a alma codificada por genes? Se, no futuro, vier-se a descobrir tal droga, será ela capaz de fornecer valores, consciência? Ou será que animais também têm tais elementos em si e nós é que não o vemos?
Se virmos bem, o Cesar foi o único que realizou tal ritual. Isto porque foi criado com humanos. Aprendeu valores dos humanos. Talvez tenha sido apenas uma demonstração do que aprendeu. Mas sabe-me a mais. Só não sei é a que mais me sabe. Fica a questão em aberto...


A inteligência é a nossa mais poderosa arma. É vantajoso crescer num meio que nos direccione para e nos ensine o bem. A partir daí temos de ser líderes de nós mesmos, sabendo quando parar e quando insistir. As coisas acontecerão como quisermos, quando quisermos e porque quisemos que assim acontecesse. With great power comes great responsibility. And I rest my case.



*Bea

(ROUBAR É FEIO. NÃO ROUBEM O QUE É MEU POR FAVOR)



1 comentário:

  1. ... é por isso que a arte não é consensual :) tu adoraste o filme, pois tem a ver com a tua "área de interesse" (académico) e também com os valores que frequentemente falamos aqui em casa, mas para quem foi a procura de um "remake" do original dos anos 70, deve ter saído do cinema decepcionado ;)

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