domingo, agosto 22

Abóbora


Abri-lhes a porta. Aliás, abro-a sempre que me distraio. 
E eles entram sem serem convidados, coisinhas rudes. Devem pensar que podem dançar qualquer melodia tardia. 
E eu deixo-me embalar nessa dança estranha e etérea, algo grotesca. Danço a valsa que nunca aprendi e que não tenho jeito para dançar. Mas mexo-me, mexo-me na imobilidade absurda do meu corpo que lentamente escorrega para o esquecimento…
Só que eles não me permitem esquecer, então danço, danço, danço, danço…
É o baile da meia-noite mas eu não sou a Cinderela. Não, sou a abóbora. E porquê? Porque me apetece. Porque as abóboras não precisam de sapatos por isso não os perdem. As abóboras são práticas, giras e são cor-de-laranja, o que é bom. Sim, até porque se fossem roxas eu preocupar-me-ia com o que andam a meter na terra para as alimentar. Apesar de não ser mau de todo se pensarmos nisso, até era exótico e interessante.


Bem, a festa vai boa, vai estranha, vai intemporal, vai surrealista e eu fico entorpecida nos meus próprios sentires e existencialismos.
Como aperitivos temos as memórias, para beber há ideias.


Mas e agora? Eles não me deixam parar de dançar!
Não me deixam…


Mas Eu, eu danço porque quis.
Eu danço porque quero.
E amanhã, se a música tocar, dançaremos de novo todos juntos no estranho baile da meia noite em que eu sou a anfitriã e eles, os sentimentos.



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No Verão, a nostalgia toma uma cor dourada, veste-se de um tempo próximo e fresco que assoma à cabeça repetidamente, em intervalos de tempo regulares.
Por isso tenho de dançar com eles todas as noites.
Até a música cessar.
E aí danço sozinha, nos sonhos.


Amanhã voltaremos a dançar.


*Bea

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